Artigos e Entrevistas

"Tenho 34 anos e uso aparelhos auditivos"

Vivemos em um tempo de grande valorização das diferenças. A tecnologia acelerou e ampliou a discussão sobre política, sobre gêneros, sobre todo tipo de escolha e posicionamento. Está exigindo de todos algum tipo de abertura. Está possibilitando a todos algum tipo de inclusão. Porque somos singulares, completamos o mundo e uns aos outros com aquilo que nos difere. Há direitos e deveres que nos igualam, mas ficou para trás a ideia de que somos iguais.

Há um pouco mais de 20 anos, uma consulta médica com um otorrinolaringologista me tornaria hoje diferente de muitos que conheço com a minha idade.

Desde a infância eu sempre sofria com otites seguidas, o que me levava com alguma regularidade aos postos médicos e clínicas para tratar as inflamações e os sintomas desagradáveis. Lembro que os médicos sempre me diziam que os canais dos meus ouvidos eram estreitos demais, o que fazia com que as águas de piscina, mar e rio tivessem dificuldade de sair depois de um mergulho. Além disso, a minha produção de cera também era maior que a média. E a combinação dos dois fatores faziam com que aquele cotonete do otorrino não fosse suficiente para a limpeza necessária. Muitas vezes, precisei pingar nos ouvidos gotas de um remédio morno durante alguns dias para que o médico conseguisse fazer seu trabalho.

Como em muitas outras vezes e naquele dia em que tudo mudou, era necessário fazer uma lavagem para higienizar completamente os meus ouvidos. Infelizmente, um erro no procedimento pode ter causado o rompimento do tímpano do ouvido esquerdo, e semanas mais tarde fez-se necessária a realização de uma cirurgia de timpanoplastia, que é como se chamam os procedimentos para recomposição da membrana.

Como sequela da cirurgia (que foi muito bem-sucedida), fiquei com perda auditiva e zumbido no ouvido operado.
Durante muito tempo, meu ouvido direito compensou a falta de capacidade de ouvir do ouvido esquerdo. De uns anos para cá, a falta de audição e, principalmente, o zumbido passaram a me incomodar mais.
Como tantas limitações que todos possuímos, duas das minhas são essas: menos audição e a presença constante de um zumbido no ouvido esquerdo.

Dois anos atrás, resolvi procurar uma solução para o incômodo. Com o acompanhamento de uma fonoaudióloga, adquiri aparelhos auditivos para os dois ouvidos e hoje vivo muito melhor. Lembro que minha esposa e amigos ainda riem quando conto que descobri sons do mundo que não conhecia antes da tecnologia.

Sei que as duas maiores objeções para o uso de aparelhos auditivos são a preocupação com a adaptação e a vaidade, já que os antigos modelos de aparelhos eram grandes e geralmente usados apenas por idosos. A respeito disso, posso testemunhar que nenhum desses dois fatores se sustentam atualmente. A adaptação foi tão natural para mim que preciso cuidar para não ir ao banho com os aparelhos, tal é a naturalidade com que os uso.

E eles são tão pequenos que para a maioria das pessoas que convivem comigo com alguma frequência eu precisei contar que estava usando aparelhos auditivos; ou não teriam visto.
Eu tenho 34 anos hoje e muitas coisas me diferem de meus amigos e demais pessoas com quem convivo, entre elas meus óculos e meus aparelhos auditivos. Em uma sociedade que vive grande evolução no que diz respeito às diferenças, vale sempre a reflexão para que reconheçamos que muitas coisas nos diferem sem necessariamente nos tornar menores.

* Juliano é jornalista e sócio de uma agência de Marketing de Conteúdo.

 

Data Postada: 25/04/2017